março 11, 2011

A QUESTÃO AGRÁRIA


Por: ULISSES PRUDENTE DA SILVA

A questão agrária
em solo brasileiro
provém dos muitos tempos
de domínio estrangeiro,
desde quando a terra,
dos índios, usurpada
pela corte portuguesa
foi, então, partilhada
sob o título primeiro
de Capitanias Hereditárias.
Os donatários dessas Capitanias,
como eram chamados
esses amigos do Rei que havia,
tornaram a repartir a terra
entre correligionários
sob o título de Sesmaria,
por ordem do Governo-geral
que o Rei de Portugal,
então, estabelecia.
Extensos, eram os limites,
a vista não alcançava,
onde por a planta do pé,
isso, ao índio bastava,
mas, no branco europeu
havia ambição desenfreada.
Muitos, dos tais donatários,
nem, aqui, pisaram os pés,
mas, sentiam-se “donos da terra”:
estava escrito num papel...
e instituíam a outros homens
sua representação fiel.
A “santa” igreja católica
de muita terra se apossou,
desde quando a primeira missa
nestas plagas celebrou
e a Companhia de Jesus,
logo, aqui se instalou.
Aos pés da santa cruz,
índio se ajoelhou,
ao trabalho “voluntário”,
alguém lhe convidou
e na expansão do “solo sagrado”,
o jesuíta Anchieta,
foi quem mais se destacou.
O tráfico do pau-brasil,
de extrativista exploração,
foi o responsável pela dizimação
de essências florestais nativas
e de aldeias indígenas,
aqui, neste rincão.
O índio, “não domesticado”,
embrenhou-se no sertão
para não ser morto à bala
ou a golpe de facão;
formou a primeira resistência
contra a cruel escravidão.
Contudo, alguns indígenas,
com os brancos se aliaram:
pelo sexo, pela fé ou pelo álcool
em bons servos se tornaram;
geraram filhos e filhas
que, por mamelucos,
foram chamados
e, a troco de cachaça,
muita mata derrubaram.
A lavoura açucareira
estava em franca expansão;
em terras brasileiras
era a principal produção
e o sistema escravagista
se implantou nesta nação.
O tráfico negreiro,
como era, assim chamado,
o comércio dos escravos,
tornou-se muito rentável
e, das terras africanas,
para o solo brasileiro,
negros foram transportados.
Tornou-se o “braço forte”
desta emergente nação,
o ser humano negro
em regime de escravidão,
da África trazido
em terrível grilhão.
Para o canavial...
verde-mar-plantação...
a produzir o branco açúcar
para deleite do “barão”
com muito sangue negro
derramado pelo chão.
Conquistava a liberdade,
somente, o negro fujão!
Embrenhando-se na mata,
ia parar, lá, no sertão;
encontrando-se com o índio
resistente à escravidão.
Surgiram, então, os Quilombos;
sonhos de libertação
e, também, os cafuzos,
pela miscigenação.
Ampliou-se os limites,
fundou-se vilas e cidades;
o novo mundo se enchia
com gente de muita maldade
e, na “corrida do ouro”,
as Entradas e Bandeiras
eram a grande novidade.
Negros foram perseguidos,
índios foram massacrados;
no rastro dos bandeirantes,
bem havia atrocidades...
Quilombos eram destruídos,
surgiam novas cidades...
e, com sangue derramado,
os limites ampliados.
A pecuária de corte
e, também, a leiteira;
logo, logo se expandiram
em terras brasileiras:
uma vaca valia mais
que uma negra parideira.
Muitos, “sinhozinhos”,
freqüentavam a senzala;
o feitor e o coronel,
esses, nem se fala:
quando uma negra engravidava
e o filho, então, vingava,
não se sabia, às vezes,
quem era o pai
do caboclo que chorava.
A lavoura algodoeira
e, também, a cafeeira,
além da açucareira,
tornaram-se o esteio
da economia brasileira
e os produtos de exportação,
sempre foram, os de primeira.
As culturas de subsistência,
consideradas subsidiárias,
em relação às grandes culturas,
sempre, foram secundárias.
O milho, a mandioca, o arroz...
eram deixados p’rá depois,
porém, cachaça e fumo
(já desgostei desses dois)
tinham muito valor
em toda zona portuária,
pois, por eles eram trocados,
negros, nos portos de Angola.
Escravos eram mercadoria
em nossa economia primária,
encontrados de montão
em qualquer empresa agrária:
para o branco português,
o negro e o índio que Deus fez,
não passavam de animália.
Foram uns trezentos anos
de negra escravidão,
produzindo o branco açúcar
com o verde deste torrão
e para a mesa do europeu
ia a melhor produção.
Chegou a vez do café
ser o principal na exportação.
Movimentando muito dinheiro,
acentuou a escravidão,
mas, por outro lado, também,
promoveu a imigração
para o solo brasileiro
do braço e capital estrangeiro:
italiano, oriental e alemão.
Daí, muitos fatores
concorreram para a negação
do regime escravagista
no seio desta nação,
tornando-se capitalista
o sistema de produção.
“Neguinho” para viver,
logo após a libertação;
para vestir, comer, beber...
tinha que ter “bom patrão”,
toda terra já tinha “dono”,
eis a raiz da questão.
Pouco depois...
da abolição da escravatura,
a República foi proclamada.
Derrubado o Imperador,
foi, a Pátria, governada
por um Presidente
Marechal das Forças Armadas.
De imediato, a República,
procurando se firmar,
o arraial de Canudos,
tratou, “do mapa tirar”:
numa terra de ninguém,
o povo vivia a plantar
com Antônio Conselheiro,
um beato popular,
mas, imposto ao governo,
não se queria pagar.
Muita gente morreu
p’rá não sair do lugar.
Foi uma tragédia singular:
no sertão nordestino,
a morte esteve a ceifar.
Mais uma mancha na história,
é triste ter que contar,
assim como, a memória
do famoso Lampião.
O “Rei do cangaço”,
o mais temido do sertão,
em conflito pela terra,
enfrentou “os coronéis”,
à milícia declarou guerra;
sua cabeça valia “mil réis”,
pagos em qualquer balcão.
O serviço de “capangagem”
se tornou coisa normal;
matar ou morrer,
ainda, é fato banal;
em nome do “dono da terra”
se peleja numa guerra,
defendendo “o capital”.
As relações de trabalho
em nossa zona rural,
sempre, deixaram a desejar,
sendo, de modo geral,
o operário, vítima
da injustiça social.
A Consolidação das Leis Trabalhistas,
chamada C. L. T. ,
aos trabalhadores rurais,
deixou à mercê
de quem se intitula “dono da terra”
e seu “bel-prazer”
com, apenas, o Código Civil
a lhes proteger.
A sociedade civil, então,
passou a se organizar
em Ligas Camponesas
e Sindicatos Rurais,
começando a lutar
pela causa operária
e em Reforma Agrária
se dispôs a falar.
A ala progressista
da igreja católica
e políticos esquerdistas
abraçaram essa causa
com a “cartilha marxista”
e uma fogueira na roça
começou a esquentar.
O Estatuto do Trabalhador Rural
trouxe alguns benefícios,
foi vitória parcial:
o problema é difícil,
o descumprimento da Lei
tem sido um grande mal,
gerando tensão social
e sangrentos conflitos
em território nacional.
O Estatuto da Terra
não saiu do papel.
A “guerrilha do Araguaia”
foi um fato cruel:
jovens foram iludidos,
por conta, correram risco,
encontraram a morte ao léu.
Em se tratando de Leis,
não podemos deixar de citar
a Usucapião pro labore
e nela se apoiar
para garantir a posse da terra
a quem nesta trabalhar.
Contudo, os interesses
das classes dominantes,
na cidade e no campo,
tratam, as Leis, de resguardar.
Para fazer valer o direito,
o sistema tem defeitos,
não se pode confiar.
Num país como este,
de extensão continental,
onde, o costume de transgredir
é um vício nacional,
principalmente, contra o fisco
e em cláusula contratual;
ainda se encontra por aí,
do Oiapoque ao Chuí,
quem pratique a escravidão,
apesar, de ser ilegal.
Poucos foram os civis,
na Presidencial função,
altas patentes militares
governaram esta nação,
usufruindo mordomias,
perseguindo a democracia
em meio à corrupção.
Agora, a gente vota
direto p’rá Presidente
e pode se candidatar,
achando conveniente
e viajar pelo mundo
é o duro desse batente.
O Presidente e seus Ministros,
Senadores e Deputados
e, também, Meretíssimos
do vitalício Judiciário
constituem os três poderes,
ganhando altos salários,
ainda assim, em corrupção
se envolve algum salafrário.
O ranço da escravidão
impregna esta nação,
muitos querem mandar,
outros querem ser ladrão,
alguns, querem trabalhar
com toda dedicação.
Apesar de cristã,
ser a nossa tradição,
poucos querem servir,
ocorre muita humilhação;
aos preceitos do Mestre,
falta, sim, compreensão.
Entender o paradoxo,
requer iluminação:
“quem quiser ser senhor,
que seja servo”,
essa, é a dura lição.
O latifundiário, então,
tornou-se o grande “barão”,
o “atual donatário”,
detentor da concentração
de terras e numerários,
pela lei da mais valia,
explora o braço operário
e é politicário,
interferindo no processo
de qualquer eleição.
A terra, ainda agora,
pode, até, ser arrendada,
com muitos anos de trabalho,
algum dia, ser comprada
e, com a cultura instalada,
sempre, é mais valorizada.
O agrícola empresário,
aquele politicário
e seu publicitário
não têm nada de otário
em dia-a-dia ordinário,
mas, o extraordinário
desse nosso rimário
é p’rá chamar a atenção
sobre o sistema agrário
vigente nesta nação.
Arrendatários e “grileiros”,
“meeiros” e/ou parceiros,
herdeiros e “posseiros”
retalham a terra em quinhão;
cultivam o solo brasileiro;
com sangue e suor
regam este chão.
“Volta e meia”, o Estado,
facilita a aquisição
de uma gleba de terra
para quem tenha vocação
de, com a empresa agrícola,
enriquecer e ser patrão.
Tornou-se, então, patente,
para toda população,
a necessidade, urgente,
de se fazer distribuição
de renda e de terras
para o bem desta nação.
Movimentos populares
de reivindicação
pela Reforma Agrária
têm crescido neste chão,
fortalecendo nosso povo
no combate à exclusão.
E, as bandeiras vermelhas
dos “sem terra” organizados,
já flamejam sem horário
sob o grito do operário:
“ocupar, resistir e produzir!”
Este é o lema a persistir.
Se não tens vocação
para a empresa agrícola,
por que reter a terra?
È ser muito egoísta!
Promova a Reforma Agrária
e serás pessoa altruísta.
Na família, às vezes,
tem o agricultor latente,
ceda, então, o espaço
para aqueles competentes
ou, senão, dê a chance
aos que são aderentes.
A mão-de-obra familiar
pode, muito bem, ser obtida
conforme solidariedade
em metas pré-definidas
e a sustentabilidade da terra
será, então, defendida.
As cidades estão inchadas
pelo êxodo rural
e assentar o homem no campo
pela agricultura geral,
torna-se, um tanto, premente:
essa é uma questão ambiental!
Sem mão-de-obra e capital
p'rá gerar economia,
que serventia tem a terra,
esse meio de produção?
Só se for para reserva,
preservando a ecologia.
Por se fazer necessária,
ampliou-se o movimento
pela Reforma Agrária
e, em cada assentamento,
tornou-se um tormento
as técnicas agropecuárias.
Mas vale a pena tentar,
se, da lavoura, ainda,
não sabes cuidar,
espera-se que um dia... saibas!
Pois, o processo dialético
na interação com técnicos,
gerando o “feed back”,
pode, a todos, transformar.
Envolve a Reforma Agrária,
em holística concepção,
a mudança de paradigma
nos sistemas de produção
p’rá conservação dos recursos
da futura geração.
O modelo agrário geral,
meramente capitalista,
chamado convencional,
tornou-se consumista
da indústria de agrotóxicos;
é um modelo anti-ecológico
que ao meio-ambiente prejudica.
Jamais, por mera retórica,
faço essa observação:
o que liga o homem à terra
não é o mísero milhão,
o lucro conseqüente
de qualquer plantação
depende do manejo do solo,
é uma constatação.
A mãe-natureza,
em louvável ação,
sempre aponta o caminho,
exigindo observação:
os fenômenos estão patentes,
mas, aquilo tão aparente
pode ser mera ilusão.
O manejo dos solos
requer sabedoria,
respeito à natureza,
dinâmica harmonia,
boa dose de ciência,
um tanto de paciência
e um pouco de poesia.
Um semeador saiu a semear
em terra seca dura semente,
palavra p’rá gente
feita de pedra que vira pó.
À beira do caminho
pássaros fizeram ninhos,
a poesia se esparramou,
provaram, dela, os passarinhos;
o semeador chorou baixinho
pela semente que não brotou.
Há, sempre, uma cruz
marcando na estrada
um fim de jornada
e a semente plantada
em terra adubada,
profunda e fecunda
com a chuva renascerá...
Trazendo alegria
na alma refeita,
após a colheita
e aquele banquete
regado a bom vinho,
no Sul da Bahia,
sem cama macia,
um poeta se deita,
descansa a caneta
e dorme sozinho.
Semente lançada,
ação consumada.
Atenção no aviso,
não corra perigo,
quem planta mostarda,
não colhe pepino.
Aprendi com os antigos,
desde menino:
não faça o que faço,
mas, faça o que digo.
Não podemos deixar
de chamar a atenção
p’rá séria questão agrária
que comove “certa” região
e requer das autoridades
uma justa intervenção.
A região supracitada
é a Região Sul da Bahia,
por muitos decantada
em forma de prosa e poesia
e tem na cacauicultura
a base da economia.
A “febre do cacau” gerou
essa questão mui delicada,
pois, em Reserva Indígena,
áreas foram tituladas,
levando índios e fazendeiros
a se enfrentarem em luta armada.
Os conflitos se estendem,
há mais de vinte anos,
fazendeiros e indígenas
vêm se digladiando
e as “terras do sem fim”
com sangue manchando.
É dado este recado
com muita emoção,
quem quiser me conhecer,
será uma satisfação
receber o seu abraço
e seu aperto de mão.
“Quem tiver olhos, que veja,
quem tiver ouvidos, que ouça”,
o meu nome vou dizer,
sou um espírito que erra,
peregrino nesta terra,
contudo, amo você...
U m simples servidor,
L ivre pensador,
I nvocando ao Senhor,
S em hipocrisia;
S obre Reforma Agrária,
E m “terras do sem fim”,
S emeia poesia....
P oeta oportunista,
R ima com a ocasião,
U ma musa encantadora
D á, ao poeta, inspiração.
E m solo brasileiro,
N unca vi, então,
T anto embusteiro
E nriquecer “metendo a mão”.
D izem que “Deus é brasileiro!”
A bençoado, seja este chão!
S em-terra, sem-teto, sem-pão...
I nvoquemos, Deus, primeiro!
L ivrai-nos, ó Deus, da humilhação...
V amos à luta companheiros!
A baixo a exclusão!
Este recado é liberado
aos meios de comunicação.
Espero, apenas,
do meu nome, a menção,
mas, se me ofertarem dinheiro...
aceitarei com gratidão.

março 06, 2011

UM PEDAÇO DE SI VOLTA ÀS CINZAS
UM OUTRO TANTO DO SEU SER RESSURGE DELAS
HABITA EM SI UMA FÊNIX MILAGROSA
O CONFLITO É SUA VIDA
O AMOR, SUA RAZÃO DE VIVER.
AINDA HÁ RAZÃO EM SEU SER?
O SER USA RAZÃO OU INTUIÇÃO?
RESIDE-LHE  RECÔNDITA
A ESPERANÇA DA FELICIDADE.
AINDA TEM IDADE PARA SER FELIZ?
EXISTE IDADE PARA A FELICIDADE?
GEMEM AMARGURAS NOS RECANTOS DE SUA'LMA
A SOLIDÃO LHE RESPINGA DA GARGANTA SECA
ALMA PERDIDA, DESENCONTROS DE ENCONTROS
QUE NUNCA DEVERIAM TER ACONTECIDO.
AO SABER TANTAS RESPOSTAS
PASSOU A REFAZER AS PERGUNTAS!


fevereiro 28, 2011

POEMA

                                              por VICTOR SEBASTIAN

Grandes são as asas da águia
pequenas as do beija-flor
Grande o bico do tucano
que come frutos aonde for
O olho da coruja é grande
O pescoço da flamingo também
O pato sabe nadar
E o pinguim, coitado,
não sabe voar.

fevereiro 20, 2011

MUDANÇAS - Maria de Lourdes da Silva

A onda era bem próxima
era quase ali na Avenida
O Porto levou a maré pra longe
Tudo se distanciou
O mar, o céu, Deus, a praia.

Ela escreveu bobagens até cansar
at´r arrancar tudo que há dentro
de si, de sua alma
não quer transigir com ninguém
emudeceu num silêncio esquizofrênico

Saudades de si
infância, adolescência
inocência
Quem as roubou?
sua vida
Quem a tomou?

Ela mesma roubou-se?
Deixou-se roubar?
Quem pagará a conta da vida perdida?
O Coronel que lhe abusou
aposentou.

A onda ainda vaga
mas longe, bem longe
haverá ainda uma vaga
para uma vida melhor?

Quem pagará o desastre?
o desabamentoo?  o ruir-se?
Conseguirá renascer dos escombros?
A onda não voltará à balaustrada
seu antigo lugar
As pedras não ressurgirão,
enterradas na areia.
mudaram a praia
Ela também mudou!

fevereiro 11, 2011

O MENINO DO LIXO – histórias de uma infância invisível

                                                                                          por Maria de Lourdes da Silva*

                                                        Na madrugada de 30 de julho, Carlos José da Silva Santos 12, dormia no lixão de Maceió quando foi atropelado por um  trator  e morreu na hora. Segundo familiares do garoto, ele teria trabalhado a noite inteira catando lixo, à revelia dos pais, e não conseguiu voltar para casa por causa do cansaço. O motorista do trator informou em depoimento que o local não possuía iluminação e que o garoto estava coberto por papelões. A prefeitura alega que o acidente foi uma fatalidade.*2
A solidão da noite inspira-me desejos, sonhos, visões. Quando chove frio e forte na madrugada sombria, o cheiro da terra sobe mais quente e doce como uma rosa vermelha ou uma pitanga madura.  A solidão da noite me diz segredos, cochicha brilhos de lua nova em meus ouvidos.  As gotas de orvalho cheiram meus lábios e respingam nos seios fartos. Lá fora, na rua, o carro do lixo passa recolhendo os restos, os despojos do dia; jogamos na terra nosso desperdício, nossa vaidade, em Goiânia jogaram o césio 137, mas um índio já avisou sobre acabar com as árvores, animais, ar, água, terra, e aí é que os ditos “civilizados” perceberão que dinheiro não se come!
A solidão da noite vem acompanhada de uma cadela e um gato preto.  A cadela se esconde embaixo da cama quando ouve o estrondo de fogos de artifício que alguém solta comemorando o prêmio na loteria. O gato preto, que a vizinha chama de Alicio (por causa da sogra dela) passeia esguio e elegante sobre o muro, como um felino egípcio.  O caminhão da coleta de lixo passa às 4 horas da manhã.  Chove.  Os garis chovem.  Chove lixo. Chove ácido em alguns lugares do planeta.  Chove nos garis.   A água escorre pelos seus corpos suados e sujos, misturando-se e ensopando sua roupa azul, descendo em pequenas gotas que dançam no ar e caem no asfalto negro e úmido como um sangue pisado, um corte, uma ferida aberta, o tempo todo...
Um menino foi atropelado e esmagado por um trator enquanto dormia num lixão de uma das nossas cidades grandes.  O trator passou por cima do garoto dorminquanto dormia num lixdo..hoco e sonhador - sonhava com uma linda floresta, cheia de animais selvagens, e ele na copa das árvores, contemplando a paisagem – que agora dorme e descansa do seu cansaço precoce para sempre. Espero que ele não tenha acordado na hora, ficou lá na floresta admirando araras azuis e hipopótamos, preso no espaço-tempo psíquico da alegria, do prazer e da felicidade.  Seu corpo virou lama, ali no monturo, misturado aos plásticos, aos restos de comida, aos eletrodomésticos gastos e corroídos que haviam sido tocados fora.  Misturou-se ao papel higiênico e seus resíduos, virou lama, virou lixo.  
Na invisibilidade de sua pequena vida talvez se sentisse um lixo, um lixo humano, nascido, crescido e criado no meio de um lixão, dormia e acordava ali, nascera no lixão, viveu lá até morrer.  Seus brinquedos, catava-os  enquanto procurava comida em meio aos sacos, um caminhão amarelo sem as rodas traseiras, uma bicicleta incompleta, bolas furadas, um carro de corrida vermelho, estilo Ferrari, com as pilhas estouradas, o controle nem estava por perto.  Pipas, nunca!
A solidão da noite sombria insiste em sussurrar lembranças ao meu coração – seu cheiro em si, o da terra, que sobe cálido e quente; o cheiro da chuva grossa, pesada, barulhenta, invasiva caindo cinzenta e forte no telhado da casa, enquanto gira a roda da vida.  A chuva cai de açoite, fazendo exalar o cheiro das flores - as flores não usam perfume, a não ser o próprio - arrancando-lhes o perfume como quem toma a virgindade de uma mulher agressivamente.  A solidão da noite me lembra que o menino foi semeado, virou flor e agora é uma  lembrança de cheiro de fruta vermelha no coração de sua mãe, lá no lixão.
Até quando isto vai acontecer em minha pátria?  hum milhão de reais não devolverá a vida de Carlos José, nem um minuto sequer de seu fôlego de vida, nem um segundo do seu último olhar sob as rodas do trator.  A solidão da noite sombria me fala de funestas negligências do poder; afinal, é tão bom voltar para casa depois de um longo dia de trabalho  (qual trabalho?) e poder tomar um banho de piscina no aconchego do lar! não importa quantos Carlos Josés da vida ficaram tão cansados de catar lixo que nem aguentaram voltar pra casa, dormiram embaixo do papelão no meio do lixão e foram esmagados pelo trator; não importa quantas crianças chupam laranja podre, dormem coberta por insetos e suas larvas, não importa que não tenham onde dormir, a negligência é funcional ao desejo de luxo e luxúria dos negligentes.Até quando isto vai acontecer em minha pátria?
*Maria de Lourdes da Silva é licenciada em Filosofia e acadêmica de Direito

              *2 - http://www.fnpeti.org.br/destaque/mpt-pede-indenizacao-por-morte-de-crianca-no-lixao-de-maceio/











janeiro 28, 2011

O livro das ignorãças

Manuel de Barros

3a. Parte
MUNDO PEQUENO
Aromas de tomilho dementam cigarras.
SOMBRA-BOA
I
O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas .
Seu olho exagera o azul.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore .
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.
II
Conheço de palma os dementes de rio.
Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzama
e de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar
no horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
de Corumbá.
Me disse que as coisas que não existem são mais
bonitas.
III
Retrato de um poste mal afincado ele era .
Sendo um vaqueiro entrementes; peão de campo.
No jeito comprido de estar em pé seu corpo fazia
três curvas no ar.
Usava um defeito de ave no lábio.
Desde o vilarejo em que nasceu podia alcançar o
cheiro das árvores.
Esse Malafincado:
Sempre nos pareceu feito de restos.
Ventos o amontoavam como folhas.
Foi sempre convidado a fazer parte de arrebóis.
(Sintomático de tordos era o seu amanhecer.)
Falava em via de hinos -
Mas eram coisas desnobres como intestinos de moscas
que se mexiam por dentro de suas palavras.
Gostava de desnomear:
Para falar barranco dizia: lugar onde avestruz
esbarra.
Rede era vasilha de dormir.
Traços de letras que um dia encontrou nas pedras de
uma gruta, chamou: desenhos de uma voz.
Penso que fosse um escorço de poeta.
IV
Caçador, nos barrancos, de rãs entardecidas,
Sombra-Boa entardece. Caminha sobre estratos
de um mar extinto. Caminha sobre as conchas
dos caracoes da terra. Certa vez encontrou uma
voz sem boca. Era uma voz pequena e azul. Não
tinha boca mesmo. "Sonora voz de uma concha ",
ele disse. Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares
conversamentos de gaivotas. E passam navios
caranguejeiros por ele, carregados de lodo.
Sombra-Boa tem hora que entra em pura
decomposição lírica: "Aromas de tomilhos dementam
cigarras. " Conversava em Guató, em Português, e em
Pássaro.
Me disse em língua-pássaro: "Anhumas premunem
mulheres grávidas, 3 dias antes do inturgescer".
Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas :
"Borboletas de franjas amarelas são fascinadas
por dejectos." Foi sempre um ente abençoado a
garças. Nascera engrandecido de nadezas.
V
Esses lagartos curimpãpãs têm índole tropical.
Tornam-se no mês de agosto amortecidos e idiotas
Ao ponto que se deixam passar por cima como pedras.
Ao ponto que se deixam atravessar por caminhões.
Aparecem de sempre esses lagartos encostados em
muros decadentes -
Onde se criam devassos.
Bem assim por exemplo:
Formiga puxou um pedaço de rio para ela e tomou
banho em cima.
Lagarto curimpãpã assistiu o banho com luxúria no
olho encapado.
Depois se escondeu debaixo de um tronco .
(Tem um tipo de árvores que dão pros lagartos)
Alguns atravessam invernos que os pássaros morrem.
Borboletas translúcidas quedam estancadas no tronco
das árvores -
Se enxergam por perto os curimpãpãs.
Mas todos sabemos que esses lagartos curimpãpãs são
pouco favorecidos de horizontes.
Enxergam tão pequeno que às vezes pensam que a
gente é árvore e nem se mexem.
Nos barrancos há riscos de suas manguaras.
E se estão em aflição de espírito - combustam!
(Essas notícias foram colhidas por volta de 1944,
entre os índios chiquitanos, na Bolívia.)
Águas estavam iniciando rãs.
VI
De primeiro as coisas só davam aspecto
Não davam idéias.
A língua era incorporante.
Mulheres não tinham caminho de criança sair
Era só concha. *
Depois é que fizeram o vaso da mulher com uma
abertura de 5 centímetros mais ou menos
(E conforme o uso aumentava.)
Ao vaso da mulher passou-se mais tarde a chamar
com lítera elegância de urna consolata.
Esse nome não tinha nenhuma ciência brivante
Só que se pôs a provocar incêndio a dois .
Vindo ao vulgar mais tarde àquele vaso se deu
o nome de cona
Que, afinal das contas, não passava de concha mesmo.
__________
* Era só concha: está nas Lendas em Nheengatu e Português, na Revista do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, Vol.154.
VI
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
-Gostar de fazer defeitos na frase e muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida
um certo gosto por nadas. . .
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios , não anda em
estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas
e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
agramática.
VII
Toda vez que encontro uma parede
ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das
lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou
de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesma só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca
não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.
VIII
Tudo o que se há de dizer aqui sobre capivaras,
nem as mentiras podem ser comprovadas. Se esfregam
nas árvores de tarde antes do amor. Se amam sem
ocupar beijos. Excitadas se femeiam por baixo dos
balseiros. E ali se aleluiam. O cisco da raízes
aquáticas e a bosta dos passarinhos se acumulam
no lombo das capivaras. Dali se desprende ao meio
dia forte calor de ordumes larvais . No lombo se
criam mosquitos monarcas, daqueles de exposição,
que furam até vidros e abaixam pratos de balança.
É vezo de dizer-se então que capivara é um bicho
insetoso. Porquanto favorecem a estima dos pássaros,
sobretudo dos bentevis que lhes almoçam larvas
ao lombo. Coisa que todo mundo gosta, tirante as
capivaras, é de flor. Pelo que já não entendo, existem
razões particulares ou individuais que expliquem
tal desgosto das capivaras por flor? Todas
guardam água no olho.
IX
Andaleço era o navio Etrúria. Se achava.
Ele tinha incumbências para água.
Crescera que nem craca nos cascos dos navios.
Se houvesse de escolher entre uma coisa e outra
ficasse deitado sobre nenhuma.
A doce independência de não escolher!
(Se a palavra é a posse da coisa nomeada, o
Etrúria era ele mesmo, o Andaleço.)
À noite caçava seu de-comer nas grotas.
O que jantava eram bundas de gafanhoto com mel.
Estóreas de Andaleço fascinavam os meninos.
O irmão-preto falou: Etrúria deve ser um
lugar sem melancia !
X
O mundo não foi feito em alfabeto. Senão que primeiro
em água e luz. Depois árvore. Depois lagartixas.
Apareceu um homem na beira do rio. Apareceu uma ave
na beira do rio. Apareceu a concha. E o mar estava
na concha. A pedra foi descoberta por um índio. O
índio fez fósforo da pedra e inventou o fogo pra
gente fazer bóia. Um menino escutava o verme de uma
planta, que era pardo. Sonhava-se muito com pererecas
e com mulheres. As moscas davam flor em março. Depois
encontramos com a alma da chuva que vinha do lado
da Bolívia - e demos no pé.
(Rogaciano era índio guató e me contou essa cosmologia.)
XI
Bernardo é quase árvore.
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos
ouvem de longe
E vêm pousar em seu ombro.
Seu olho renova as tardes.
Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho
1 abridor de amanhecer
1 prego que farfalha
1 encolhedor de rios - e
1 esticador de horizontes.
(Bernardo consegue esticar o horizonte usando 3
fios de teias de aranha. A coisa fica bem esticada.)
Bernardo desregula a natureza:
Seu olho aumenta o poente.
(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua
incompletude?).
XII
Estou atravessando um período de árvore.
O chão tem gula de meu olho por motivo que meu
olho tem escórias de árvore.
O chão deseja meu olho vazado pra fazer parte do cisco
que se acumula debaixo das árvores.
O chão tem gula de meu olho por motivo que meu olho
possui um coisário de nadeiras.
O chão tem gula de meu olho pelo mesmo motivo que
ele tem gula por pregos por latas por folhas.
A gula do chão vai comer o meu olho.
No meu morrer tem uma dor de árvore.
XIII
De 1940 a 1946 vivi em lugares decadentes onde o
mato e a fome tomavam conta das casas, dos seus
loucos, de suas crianças e de seus bêbados.
Ali me anonimei de árvore.
Me arrastei por beiradas de muros cariados desde
Puerto Suarez, Chiquitos, Oruros e Santa Cruz de
La Sierra, na Bolívia.
Depois em Barranco, Tango Maria (onde conheci o poeta
Cesar Vallejo), Orellana e Mocomonco - no Peru.
Achava que a partir de ser inseto o homem poderia
entender melhor a metafísica.
Eu precisava de ficar pregado nas coisas vegetalmente e
achar o que não procurava.
Naqueles relentos de pedra e lagartos, gostava de
conversar com idiotas de estrada e maluquinhos de
mosca.
Caminhei sobre grotas e lajes de urubus.
Vi outonos mantidos por cigarras.
Vi lamas fascinando borboletas.
E aquelas permanências nos relentos faziam-me
alcançar os deslimites do Ser.
Meu verbo adquiriu espessura de gosma.
Fui adotado em lodo .
Já se viam vestígios de mim nos lagartos.
Todas as minhas palavras já estavam consagradas de
pedras.
Dobravam-se lírios para os meus tropos.
Penso que essa viagem me socorreu a pássaros.
Não era mais a denúncia das palavras que me importava
mas a parte selvagem delas, os seus refolhos, as
suas entraduras.
Foi então que comecei a lecionar andorinhas.
Fonte: cinepalhastro.blogspot.com